| Texto publicado em 30/01/2012* - 13:53, segunda-feira. | por Marília Daros | | *Atenção: você está lendo CONTEÚDO DE ARQUIVO. Publicado há mais de 3 meses! |  Um quarto de légua em quadro - Fragmentos de um romance de resgate da vinda dos luso-açorianos para as terras do sul do Brasil Luiz Antônio de Assis Brasil, hoje, é o Secretário da Cultura do Estado do Rio Grande do Sul. Um amigo que o tempo me presenteou.
Nos anos 60, quando cursei a Faculdade de Artes pela UFRGS, morávamos na mesma rua, na Fernando Machado, em Porto Alegre dos casais, em prédios vizinhos, e muitas vezes, cruzamos e conversamos até. Nestes caminhos do cotidiano, a gente nunca sabe o que vai acontecer, por isto, lembrar agora, significa um pequeno resgate de um convívio pequeno mas que existiu.
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  1999 com o amigo João, açoriano, do Gabinete Regional das Comunidades, na Ilha das Flores. - Fotógrafo: amigo em curso
 1999, na Ilha Terceira, com colegas de curso, todos de Floripa, Santa Catarina. Como eu, buscando conhecimento. Ao fundo o Passo Municipal de Angra do Heroísmo e estamos no núcleo histórico, na Praça Velha. - Fotógrafo: amigo em curso
 1999, em curso, num passeio a ilha do Corvo, a menor do arquipélago dos Açores. Eu e uma amiga canadense, estamos na cratera do vulcão que ocupa quase toda a ilha. - Fotógrafo:amigo em curso

Introdução
Estamos entrando nas comemorações dos 260 anos da Imigração Açoriana no RS e eu não tinha ainda lido este livro. Mas agora estou redimida. Este romance situado no período distante de 1752/1753, fala das raízes que tenho estudado durante os últimos 30 anos: as raízes lusas em Gramado. Talvez se tivesse lido antes, não fosse portadora de tantos subsídios para entender o seu real valor. Por isto, amigo Assis Brasil, tendo a parceria de sua escrita posso me debruçar novamente nos livros científicos sobre a imigração açoriana e melhorar o meu entendimento de algumas coisas que não havia encontrado, de forma tão humana, em outros livros já lidos. Obrigada. Seu livro vai para minha biblioteca só agora mas creia, ele já fazia parte dela, de alguma forma, no meu olhar curioso e na minha vontade de saber mais sobre este povo que meu pai havia procurado destacar tanto em nossa colonização. Tenha a certeza.
Eles chegaram a Gramado em muitas gerações posteriores de seu romance, mas colonizaram.
E seus descendentes tenho a certeza, repito, ainda estão aqui, povoando esta terra e trabalhando por ela com o mesmo afeto que os trouxe até aqui.
E gostaria também de fazer um registro meio histórico para mim. Nos anos 60, quando cursei a Faculdade de Artes pela UFRGS, morávamos na mesma rua, na Fernando Machado, em Porto Alegre dos Casais, em prédios vizinhos, e muitas vezes, cruzamos e conversamos até. Nestes caminhos do cotidiano, a gente nunca sabe o que vai acontecer, por isto, lembrar agora, significa um pequeno resgate de um convívio pequeno mas que existiu. Dedico estes seus fragmentos, coletados de seu livro, para a nossa comunidade regional, na esperança de que entendam que, sendo de qualquer etnia, é obrigação cidadã dar valoração ao que passou e dar sentido ao futuro, acreditando nestes valores. As imigrações, todas, foram sofridas e doloridas para os imigrantes. Em qualquer etnia. Procure se colocar sempre, leitor, no lugar deles e, certamente, vais entender melhor o que é ser um verdadeiro “descendente”.
AZORIANI ! Fragmentos de um romance de resgate da vinda dos luso-açorianos
para as terras do sul do Brasil.
“Uma verdadeira multidão, socada dentro desta casca de noz... É impossível a vinte e seis mil réis por cabeça, trazer toda esta gente! Não sei como ganhou a concorrência do transporte!...”
“Pelo sinal da Santa Cruz, livre-nos Deus Nosso Senhor de nossos inimigos! A cada milha que navegamos, algo vai ficando de mim no rastro de espuma. E os pedaços são comidos avidamente pelas gaivotas, que não sabem sofrer e nem a razão porque são felizes.”
“...Não sei se já escrevi sobre as condições dos colonos que dormem no convés. Dormir não é a expressão exata. Encostam-se uns aos outros e cochilam, por falta de espaço. Um sono agitado, freqüentemente interrompido pelos marinheiros em suas idas e vindas. Têm sorte quando não chove, pois estamos num navio sem cobertura e as chuvaradas da estação alagam de ponta a ponta o convés...”
“Tudo está nas mãos de Deus, eu sei, mas será que era preciso tanta agonia, tanta humilhação, tanta morte? Será que deve ser este o destino dos homens de bem deste reino?...”
“E prometeram muita coisa a começar pela terra, um quarto de légua em quadro. Dois alqueires de sementes, duas vacas, farinha para o sustento, ferramentas, espingarda – todo o necessário ... estamos vivendo entre perdidos no meio de um oceano que não é só de águas, mas também de dúvidas, de perguntas, de longas indagações.”
“Vivi mil anos nesta viagem...”
“Cada escaler que vinha largava na praia mais pessoas. Ao entardecer faziam uma pequena multidão, batida pelo vento e pela areia...”
“São nossa gente, é verdade, mas começam a perder o fio que os prendia às ilhas. Sabe o quê? Começam a ser Brasileiros...Verá que com o tempo até mudarão o falar. Esta é a terra que lhes dá o pão. A terra que os recebeu e não perguntou nada... O que era próprio de cada ilha, agora já está entrelaçado com o que era próprio das outras, fazendo uma coisa só...”
“A seu modo, cada um de nós colabora para o progresso e a decadência da humanidade.”
“Quase ninguém sabe onde começa ou onde termina sua terra. Estão, a maioria, sem título algum. Temem ter de sair a qualquer momento.”
“Agora, que fazem? Dividem a terra em pedacinhos, dão um a cada colono. Para que? Ficar plantando milho, abóbora, mandioca e fazendo filhos? Gado não dá para criar naqueles terreninhos que estão ganhando. Mas a política é essa. Boa política, essa, de mudar a miséria de lá para cá...”
“ Os colonos recém-chegados começam a fazer um queijo não totalmente ruim. Os que já estavam aqui se ensinam alguma coisa aos novos, têm também aprendido muito com os ilhéus. Os antigos moradores, em geral aventureiros paulistas, tropeiros de má catadura, habituados a correr gado alçado pelo campo, agora têm vislumbrado um novo modo de vida, mais sóbrio, mais doméstico. Mais afamiliado...”
“Um quarto de légua em quadro, uma data, como chamam...Mas há quem recebe muito mais! Sesmarias! Paulistas e outras gentes. E uma sesmaria nem se compara com uma data! É muito maior!...dentro de uma sesmaria, cabem cinqüenta, sessenta datas...”
Conclusão
Em cada leitura um aprendizado.
Aprendi com meu pai, em sua biblioteca, que sempre é preciso ler.
Aprendi com Rui Barbosa em sua “Oração aos moços” que é preciso estudar e estudar. Como deixar de obedecer tão sábios mestres?
Aprendi agora com Luiz Antônio de Assis Brasil que é preciso acolhimento para que aconteça o arranchamento do ser humano e suas tralhas. Que é preciso o desfazimento de todos os preconceitos e bagulhos que são trazidos por gerações e gerações de preconceitos e desafetos. Somos todos, gaúchos, envolvidos no manto sagrado da fé no amanhã e na genealogia que nos irmana, mesmo sendo de tantas e tão diversas etnias.
Bons dias a todos. |  | |
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